Porque optei por usar cosméticos e produtos naturais no cabelo

Há cerca de dez anos mantenho meu cabelo natural, livre de químicas que modifiquem a fibra capilar e textura, como alisantes. Nesse processo de transição descobri como ele é e quais melhores formas de deixá-lo bonito e saudável.

Quando iniciei, poucas linhas de produtos da indústria de cosméticos eram direcionados a cabelos crespos/cacheados e a internet foi como um laboratório em que aprendi receitinhas e técnicas (principalmente naturais). Hoje virou um fenômeno e as grandes empresas viram que poderiam ganhar muito dinheiro incluindo a gente como público consumidor. Fico feliz com isso pois passei anos anos invisibilizada e hoje as crespas/cacheadas têm a opção desses produtos específicos que respeitam as particularidades que existem.

Para entender meu cabelo e o que e estava usando nele tive que estudar. Estudar a função do xampu, condicionador, creme de pentear, máscara de hidratação, óleo etc… Entender como cada produto funciona na estrutura capilar. Com isso descobri que a maioria deles contém substâncias químicas que não fazem muito bem a estrutura dos nossos fios.

Como os cosméticos podem fazer mal ao cabelo?

Uma das matérias que me ajudou a entender como essa associação produtos x cabelos funciona foi a da revista de divulgação científica Pesquisa FAPESP (julho/2007), feita pelo jornalista Ricardo Zoretto e intitulada “Fio a Fio: Testes revelam como cosméticos, em muitos casos, danificam o cabelo”. A matéria divulga testes realizados pela cientista Inés Joekes e sua equipe, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que mostram como esses produtos podem ser danosos a estrutura do cabelo.

O uso do xampu, por exemplo, pode destruir pequenas partículas que modificam a estrutura do cabelo. “O simples uso diário de xampu faz mais do que eliminar as partículas de sujeira, de poluição e o sebo do couro cabeludo que se acumula nos fios. Ele é tão eficiente que remove até mesmo pequenas partes do próprio fio, contribuindo para produzir danos microscópicos em sua estrutura, alterar a cor e torná-lo mais quebradiço, em especial nas pontas,” expõe o jornalista em seu texto. Os testes ainda apontam que a fricção que fazemos no uso do xampu no couro cabeludo é responsável por 90% dos danos à cutícula e é visível a olho nu através do que chamamos de “ponta dupla”.

Pensando em como esses produtos podem ser agressivos a estrutura dos cabelos cacheados que a Lorraine Massey, autora do best seller Curly Girls e da linha de produtos para cabelos Deva Curl, criou os conceitos No Poo e Low Poo, que tem como princípio a não utilização de xampus ou que não tenham em sua composição o sulfato de sódio, agente causador da espuma. Atualmente linhas de cosméticos industriais como a Lola ou a Yamá criaram fórmulas que atendem essas demandas que o cabelo crespo/cacheado, já que são mais ressecados devido a estrutura dos fios.

Pensando no que pode ser melhor para mim e meu corpo, decidi usar as duas técnicas na lavagem e diminuir o uso de produtos que tenham parabenos, óleo mineral, silicones industriais e sulfato.

Não preciso ter uma farmácia de produtos para cabelo

Até entender o que meu cabelo precisa para ficar saudável passei por vários processos e entre eles foi entender qual produto se adaptava melhor com meu tipo de cacho, por exemplo. Meu maior conflito foi enfrentar a ditadura dos cachos perfeitos e passar horas cuidando do cabelo para que ele fique super definido, sem frizz e volumoso! Cheguei a comprar muita coisa que no final virou lixo ou tornou-se desnecessária.

Quando engravidei decidi cortar meu cabelo curtinho e a partir daí minha relação com ele mudou por completo. Percebi que não precisava criar nenhum cronograma capilar ou técnica para deixar os cachos perfeitos. Meu cabelo era livre e eu também! Não precisava me tornar escrava de cosméticos e nem ter vários deles para me sentir bem e feliz com meu corpo, afinal cabelo é corpo.

babosa

Babosa é uma planta muito utilizada para fazer hidratações caseiras. (foto da internet)

Nessa transformação decidi tomar uma posição política em relação ao meu cabelo, que é buscar cada vez mais o uso de produtos e cosméticos naturais. Essa decisão veio naturalmente e associada a três princípios: resgate das práticas e tradições dos cuidados ancestrais de respeito com o corpo e a natureza; valorização e fortalecimento do empreendedorismo feminino (principalmente o negro); relação saudável e econômica com meu dinheiro.

Hoje digo que consegui ser fiel aos princípios e quando as pessoas me perguntam e pedem dicas do que usar no cabelo, eu sempre indico o que encontramos na natureza ou – minha relação de amor – os cosméticos da Ewé, feitos por Mona Soares, farmacêutica, fitoaromaterapeuta e artesã de cosméticos naturais.

Perceber as mudanças que o não uso de produtos industriais fizeram no meu cabelo demorou um certo tempo, mas hoje percebo que aquele esforço que eu fazia para mantê-lo hidratado não é mais necessário. Com o uso do xampu sólido, condicionador e um pouquinho de creme de pentear ou óleo de coco ele está lindo e sedoso. E gastando muito pouco (acredite!). Muitas vezes o mito de que produtos naturais ou feitos à mão são caros isentam as pessoas de se permitirem conhecer rotas alternativas, fora a influência que a mídia/publicidade tem sobre a gente. O post “Cosméticos naturais são caros?” do blog Herbalismo e Alquimia, de Mona Soares é maravilhoso e pode te ajudar a desmistificar o consumo de produtos artesanais.

Quais cosméticos para o cabelo eu uso?

Segue uma listinha do que uso e minha relação com cada produto:

  • Creme de cabelo mel e dendê da Ewé: deixa meu cabelo super hidratado e cheiroso e só uso ele apenas uma vez, após a lavagem. No dayafter sinto que ele tem brilho e maciez suficiente para não precisar de mais nada! Compro na loja virtual da Ewé
  • Óleo de coco natural: compro na feira livre de minha cidade do interior e uso tanto no cabelo após a lavagem (junto com o creme ou sem) e também no corpo substituindo o hidratante;
  • Babosa: uso a baba para hidratar o cabelo junto com a hidratação, acho sempre na feirinha;
  • Condicionador de Andiroba e Copaíba da Ewé: a melhor invenção de todos os tempos, porque muitas vezes uso somente ele pra lavar, pois serve como xampu e condicionador (2em1) e deixa meu cabelo super lindo e hidratado;
  • Creme de pentear Yamasterol (do amarelo): uso após lavagem ou as vezes quando o cabelo ta meio se graça, misturo com água e aplico nele seco;
  • Xampu sólido Ewé (castanha): É um sabonete, no início você pode achar estranho. Sinto meu couro cabeludo bem limpo e não espumam tanto. Na verdade já usei vários, esse é o mais atual. Meu cabelo só não se adaptou o xampu de coco, mas os outros me dei super bem. No blog da Ewé (clique aqui) tem dica de como lavar o cabelo com esse tipo de xampu;
  • Xampu, condicionador e máscara hidratante da Bio Extratus linha Pós-Progressiva: amo muito essa linha e meu cabelo se dá super bem. Não contém muitos produtos que são agressivos ao cabelo como parabenos e o sulfato.

Digo sempre que toda escolha – seja ela qual for – é política. Eu optei por começar por essa e tem feito muito bem, principalmente porque já foi replicada no meu filho que não usa nenhum sabonete industrial. Não quero que ninguém se sinta obrigado a seguir meu ritmo e nem condeno quem usa produtos industriais, mas acredito que é preciso mostrar que existem alternativas para tudo que se faz e consome.

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A mulher negra e o acesso à saúde

Por Lorena Morais, jornalista baiana e proprietária da marca Encrespando

Aguardei ansiosa pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha para escrever sobre nós mulheres negras, principalmente as gestantes. Meu desejo é que esta reflexão valha não somente para hoje, mas para todos os dias.

A minha luta enquanto mulher negra começou quando consegui me observar e me entender enquanto tal. Hoje a responsabilidade é muito maior devido à criança que carrego no ventre e todas as escolhas que fiz e faço para minha gestação e parto.

Lorena-Morais-Mulher-Gestante-Negra

Tudo começou com o seguinte questionamento: como se dá o acesso e tratamento da saúde à mulher negra gestante no Brasil? A partir daí fiz uma reflexão sobre o acesso à saúde de qualidade e os desafios que nós, mulheres negras, enfrentamos diariamente.

Pesquisei artigos científicos e busquei dados que justificassem minha dúvida e concluí que nos sistemas de saúde brasileiros – seja público ou particular – existe o racismo institucionalizado, que “sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e por demais instituições e organizações” (CRI apud Goes e Nascimento, p. 572, 2013).

SUS sem Racismo

Em novembro de 2014 o Ministério da Saúde lançou uma campanha contra o racismo no Sistema Único de Saúde – SUS, “SUS sem Racismo”, com o objetivo de conscientizar a população e os profissionais de saúde a respeito do racismo presente no atendimento médico. Os dados mostraram que existe uma diferença no atendimento entre mulheres negras e brancas com as seguintes estatísticas: mulheres negras recebem menos tempo de atendimento médico que mulheres brancas e compõem 60% das vítimas da mortalidade materna no Brasil. Em relação ao parto, somente 27% das negras tiveram acompanhamento, ao contrário das brancas que somam 46,2%, além de outras diferenças quando se trata anestesias, tempo de espera e informações pós-parto, como aleitamento materno.

Atendimento pré-natal da mulher negra

Durante a minha gestação vivi e ouvi relatos que constatam esta realidade. No meu primeiro atendimento médico pré-natal – particular – fui obrigada junto com meu companheiro a esperar a hora que o profissional quisesse chegar com a seguinte afirmação: “começa a marcar a partir de x horas, mas ele não tem hora pra chegar”. No atendimento me senti um lixo, pois ele mal me olhou e no momento que fiz alguns questionamentos me indicou remédios e não explicou quais mudanças que aconteciam no meu corpo que geravam as alterações. Ao sair chorei muito e disse que não era obrigada a me submeter a este tipo de atendimento.

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Busquei outro profissional pelo SUS, muito frio no atendimento, receitou uma série de remédios e não respondeu as minhas dúvidas. Novamente procurei outro obstetra, neste caso particular, porém seu comportamento machista me inquietou muito no consultório. Ao mesmo tempo ouvi relatos de pacientes (negras) que confirmaram sua atitude e diziam que ele ainda as chamava de “gorda” e “feia”. Decidi que este profissional não merece meu dinheiro e nem meu bebê esta energia!

Por fim, o melhor atendimento que encontrei foi em uma Unidade Básica de Saúde, pelo SUS, com uma enfermeira, mãe, humanista, que respondeu e explicou as minhas dúvidas, ficou o tempo necessário comigo no consultório, entendeu e orientou humanamente minhas decisões para o parto.

Ao mesmo tempo em que passei por tudo isso, encontrei gestantes e parturientes negras que relataram momentos de sofrimento em hospitais, negligência, destrato, abandono, falta de orientações e um série de violências obstétricas das quais algumas estavam cientes, porém nada podiam fazer e outras desconheciam seus direitos e consideravam as atitudes médicas louváveis, como a episiotomia sem consentimento (corte na região do períneo) e manobra de Kristeller (expulsão do bebê subindo na barriga).

Desafios

“As desigualdades raciais determinam o acesso aos serviços de saúde e limitam o cuidado. Por intermédio do racismo, as desigualdades são causadoras de doenças e agravos que resultam nas iniquidades raciais em saúde. E, para as mulheres negras, outros fatores agregados, como o sexismo, expõem a uma situação de vulnerabilidade e violam o direito à saúde e ao acesso qualificado” (Goes e Nascimento, p. 578).

Penso que nosso desafio por uma saúde de qualidade e sem racismo/sexismo é grande. Estamos submetidas a esse tipo de atendimento principalmente devido a falta de informação e direitos. O que podemos fazer é divulgar a existência do racismo institucional e denunciar para que campanhas e ações estratégicas atinjam os profissionais e a população para que este fato não se torne invisível.

Minha contribuição enquanto mulher negra e atualmente gestante é mostrar que nós somos fortes o suficiente não para aguentar uma violência obstétrica, mas para sermos as protagonistas do nosso parto.

Fontes

GOES, Emanuelle; NASCIMENTO, Enilda. Mulheres negras e brancas e os níveis de acesso aos serviços preventivos de saúde: uma análise sobre as desigualdades. Saúde em Debate, vo.l 37, n. 99, Rio de Janeiro, 2013.

SUS sem Racismo, página no facebook. Disponível em: http://facebook.com/SUSnasRedes

ARRAES, Jarid. Mulher negra e saúde: “a invisibilidade adoece e mata!”. Revista Fórum Semanal, dezembro 2014. Disponível em: http://revistaforum.com.br/digital/176/mulher-negra-e-saude-invisibilidade-adoece-e-mata/

O São João da Renner e o lugar da mulher negra

Por Lorena Morais, jornalista baiana

Nós, mulheres negras, lutamos todos os dias contra o fantasma da solidão e a forma como a mídia reproduz estereótipos racistas e sexistas. Aí vem a loja de departamentos Renner e faz um comercial de São João 2015 que derruba toda a nossa luta diária (link do vídeo).

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Trecho do vídeo da propaganda São João Renner em que a personagem principal é uma mulher negra que procura um par.

Uma mulher negra (a única da cena) reza para Santo Antônio ou qualquer outro santo, pedindo um par, que não seja nem pra casar, mas apenas pra beijar e é rejeitada por todos os homens brancos da cena, que ficam com as mulheres brancas. Ao final ela encontra um negro, que manda uma cartinha e aceita ficar com ela.

Este final poderia ser lindo se não estivesse explícito o discurso que a propaganda traz. “Mas vocês vêm racismo/sexismo em tudo?”. Com certeza alguns/mas de vocês devem estar me perguntando isso! Mas não sou eu que vejo, é o que está nítido na mensagem subliminar que a propaganda traz.

Porque a única mulher negra da cena está sozinha? Porque nenhum homem branco quer ficar com ela? Porque com tanta gente na propaganda só existem três pessoas negras: Um homem que está com duas mulheres, a personagem principal da cena e o rapaz que no final fica com ela? Porque todas as mulheres brancas da cena tem um par?

Ao entrar na fanpage da Renner constatei que não estava enganada sobre o papel e lugar do negro/negra na publicidade da empresa. Estarei mentindo se disser que não encontrei modelos negros/as, mas posso contá-los/las a dedo. Na sua maioria são brancos/as, magros/as e capas de revistas. Qual o lugar que ocupamos então? Se a empresa quis ser democrática, cometeu uma gafe.

Ao ver a propaganda, que apareceu em minha linha do tempo porque a página da empresa é patrocinada, senti a dor e revivi anos atrás de toda reflexão que fiz enquanto mulher negra. Da rejeição nas festas e nos grupos entre as amigas, por não me encaixar no padrão das “meninas para serem beijadas”.

A Renner quis nos dizer qual é nosso lugar. Não somos pra casar, por isso temos que nos conformar. E vamos continuar pedindo um homem “pra casar” no pé do altar de Santo Antônio e como demora a aparecer ou nunca aparece, vamos nos conformar com qualquer um que apenas nos queira, nem que seja por uma noite, nem que seja às escondidas.