O São João da Renner e o lugar da mulher negra

Por Lorena Morais, jornalista baiana

Nós, mulheres negras, lutamos todos os dias contra o fantasma da solidão e a forma como a mídia reproduz estereótipos racistas e sexistas. Aí vem a loja de departamentos Renner e faz um comercial de São João 2015 que derruba toda a nossa luta diária (link do vídeo).

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Trecho do vídeo da propaganda São João Renner em que a personagem principal é uma mulher negra que procura um par.

Uma mulher negra (a única da cena) reza para Santo Antônio ou qualquer outro santo, pedindo um par, que não seja nem pra casar, mas apenas pra beijar e é rejeitada por todos os homens brancos da cena, que ficam com as mulheres brancas. Ao final ela encontra um negro, que manda uma cartinha e aceita ficar com ela.

Este final poderia ser lindo se não estivesse explícito o discurso que a propaganda traz. “Mas vocês vêm racismo/sexismo em tudo?”. Com certeza alguns/mas de vocês devem estar me perguntando isso! Mas não sou eu que vejo, é o que está nítido na mensagem subliminar que a propaganda traz.

Porque a única mulher negra da cena está sozinha? Porque nenhum homem branco quer ficar com ela? Porque com tanta gente na propaganda só existem três pessoas negras: Um homem que está com duas mulheres, a personagem principal da cena e o rapaz que no final fica com ela? Porque todas as mulheres brancas da cena tem um par?

Ao entrar na fanpage da Renner constatei que não estava enganada sobre o papel e lugar do negro/negra na publicidade da empresa. Estarei mentindo se disser que não encontrei modelos negros/as, mas posso contá-los/las a dedo. Na sua maioria são brancos/as, magros/as e capas de revistas. Qual o lugar que ocupamos então? Se a empresa quis ser democrática, cometeu uma gafe.

Ao ver a propaganda, que apareceu em minha linha do tempo porque a página da empresa é patrocinada, senti a dor e revivi anos atrás de toda reflexão que fiz enquanto mulher negra. Da rejeição nas festas e nos grupos entre as amigas, por não me encaixar no padrão das “meninas para serem beijadas”.

A Renner quis nos dizer qual é nosso lugar. Não somos pra casar, por isso temos que nos conformar. E vamos continuar pedindo um homem “pra casar” no pé do altar de Santo Antônio e como demora a aparecer ou nunca aparece, vamos nos conformar com qualquer um que apenas nos queira, nem que seja por uma noite, nem que seja às escondidas.