Minha maternidade tem cor: mães negras na luta contra o racismo

“Depois de colocá-la em uma escola particular, em menos de um mês de aula, minha filha – na época com cinco anos – queria ser branca, ficava procurando qual parte de sua pele era branca”. Para Meires Barbosa, universitária, esse tem sido um dos maiores desafios da maternidade negra: o enfretamento ao racismo.

E ela tenta superá-lo mostrando a sua filha Sara, hoje com 8 anos, referenciais negras que vão da estética até aos produtos que consome. “Procuro sempre mostrar para ela que somos bonitas com nossos cabelos crespos. Falo o que passou com o nosso povo, procuro desenhos, brinquedos e livros relacionados à temática racial”, pontua.

Meires sofreu muito preconceito na infância e sua família até hoje não dialoga sobre racismo. Mas ela jurou que com sua filha seria diferente. Está pronta para lutar e “mostrar a beleza da cor, cabelo e traços negros sem abaixar a cabeça”.

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Ainda grávida, a mulher negra sofre o racismo institucional presente em muitas instituições públicas e privadas de saúde. Parir essa criança e passar por um enfrentamento diário. 

O desafio da maternidade negra que começa desde a gestação e passa pelo aborto com um tema central: o racismo. Desde o institucional, que nega o acesso a serviços de saúde, expõe a mulher negra a diversos tipos de violência obstétrica e não garante informações como aleitamento materno.

A redução da morte materna ainda é um desafio que não foi superado no país e as estatísticas mostram que as mulheres negras são maioria em óbitos. O Relatório Socioeconômico da Mulher – Ano 2014, elaborado pelo Governo Federal, comprovou que a população negra é a que mais morre por causas obstétricas (62,8% de mulheres negras x 35,6% das mulheres brancas).

Racismo na escola

Diante dos dados que mostram o alto índice de mortalidade, para a mulher negra que sobrevive a esse fato, criar seus filhos e filhas significa lutar contra o racismo na família, na rua e, principalmente, na escola; local de frequente reprodução dessa violência.

“Meu filho ganhou um tênis de marca e o colega da escola perguntou se era falsificado. No dia seguinte ele não queria mais calçá-lo. Eu disse que ele tinha que ir”, enfatizou Jadsiane dos Santos, diarista, mãe de três meninos e uma menina.

Para ela, o racismo vem junto com o fator social já que sua família é de baixa renda. Os filhos estudam em colégios particulares custeados de forma colaborativa entre a família, mas não podem participar de todos os projetos e são o tempo todo ironizados pelos colegas de classe.

Casos de racismo na escola vem ganhando repercussão porque muitas mães não silenciam mais. Umas acionam o Ministério Público – principalmente quando a escola minimiza e abafa os casos – ou conversam com a diretoria, expõem o problema, buscam alternativas e sugerem temas e atividades para dialogar em sala de aula, já que muitos professores e professoras não se sentem preparados.

Mães como Meires, que encontrou um caminho para conversar sobre racismo com a turma de sua filha: “Dei algumas indicações de literatura infantil e a professora desenvolveu um trabalho com toda a turma”.

O que podemos fazer por nossas crianças?

Eu sou mãe e sei que meu filho não estará blindado contra o racismo o tempo todo, mas preciso prepará-lo de alguma maneira. Para nós é importante estabelecer este papel de reconhecimento da identidade racial com as crianças e trabalhar o enfrentamento e fortalecimento.

Referenciais são importantes: livros que tragam personagens negros/negras em papéis principais, convívio com pessoas que valorizem a estética negra, frequentar ambientes em que os negros/negras estejam em uma posição de destaque, assistir programas de televisão e filmes que mostrem uma realidade contra-hegemônica e de protagonismo negro, o diálogo diário e palavras de fortalecimento, dentre outros. Precisamos buscar conhecer e contar a história a partir do nosso ponto de vista, tendo a consciência que é um trabalho contínuo.

Esses referenciais são importantes para nosso fortalecimento e reforça o laço da maternidade na luta pelo enfrentamento diário. Representatividade é importante!

Lorena Morais é mãe, negra e jornalista

   O texto original foi publicado no site Brasil de Fato: http://www.brasildefato.com.br/node/33471

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A mulher negra e o acesso à saúde

Por Lorena Morais, jornalista baiana e proprietária da marca Encrespando

Aguardei ansiosa pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha para escrever sobre nós mulheres negras, principalmente as gestantes. Meu desejo é que esta reflexão valha não somente para hoje, mas para todos os dias.

A minha luta enquanto mulher negra começou quando consegui me observar e me entender enquanto tal. Hoje a responsabilidade é muito maior devido à criança que carrego no ventre e todas as escolhas que fiz e faço para minha gestação e parto.

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Tudo começou com o seguinte questionamento: como se dá o acesso e tratamento da saúde à mulher negra gestante no Brasil? A partir daí fiz uma reflexão sobre o acesso à saúde de qualidade e os desafios que nós, mulheres negras, enfrentamos diariamente.

Pesquisei artigos científicos e busquei dados que justificassem minha dúvida e concluí que nos sistemas de saúde brasileiros – seja público ou particular – existe o racismo institucionalizado, que “sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e por demais instituições e organizações” (CRI apud Goes e Nascimento, p. 572, 2013).

SUS sem Racismo

Em novembro de 2014 o Ministério da Saúde lançou uma campanha contra o racismo no Sistema Único de Saúde – SUS, “SUS sem Racismo”, com o objetivo de conscientizar a população e os profissionais de saúde a respeito do racismo presente no atendimento médico. Os dados mostraram que existe uma diferença no atendimento entre mulheres negras e brancas com as seguintes estatísticas: mulheres negras recebem menos tempo de atendimento médico que mulheres brancas e compõem 60% das vítimas da mortalidade materna no Brasil. Em relação ao parto, somente 27% das negras tiveram acompanhamento, ao contrário das brancas que somam 46,2%, além de outras diferenças quando se trata anestesias, tempo de espera e informações pós-parto, como aleitamento materno.

Atendimento pré-natal da mulher negra

Durante a minha gestação vivi e ouvi relatos que constatam esta realidade. No meu primeiro atendimento médico pré-natal – particular – fui obrigada junto com meu companheiro a esperar a hora que o profissional quisesse chegar com a seguinte afirmação: “começa a marcar a partir de x horas, mas ele não tem hora pra chegar”. No atendimento me senti um lixo, pois ele mal me olhou e no momento que fiz alguns questionamentos me indicou remédios e não explicou quais mudanças que aconteciam no meu corpo que geravam as alterações. Ao sair chorei muito e disse que não era obrigada a me submeter a este tipo de atendimento.

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Busquei outro profissional pelo SUS, muito frio no atendimento, receitou uma série de remédios e não respondeu as minhas dúvidas. Novamente procurei outro obstetra, neste caso particular, porém seu comportamento machista me inquietou muito no consultório. Ao mesmo tempo ouvi relatos de pacientes (negras) que confirmaram sua atitude e diziam que ele ainda as chamava de “gorda” e “feia”. Decidi que este profissional não merece meu dinheiro e nem meu bebê esta energia!

Por fim, o melhor atendimento que encontrei foi em uma Unidade Básica de Saúde, pelo SUS, com uma enfermeira, mãe, humanista, que respondeu e explicou as minhas dúvidas, ficou o tempo necessário comigo no consultório, entendeu e orientou humanamente minhas decisões para o parto.

Ao mesmo tempo em que passei por tudo isso, encontrei gestantes e parturientes negras que relataram momentos de sofrimento em hospitais, negligência, destrato, abandono, falta de orientações e um série de violências obstétricas das quais algumas estavam cientes, porém nada podiam fazer e outras desconheciam seus direitos e consideravam as atitudes médicas louváveis, como a episiotomia sem consentimento (corte na região do períneo) e manobra de Kristeller (expulsão do bebê subindo na barriga).

Desafios

“As desigualdades raciais determinam o acesso aos serviços de saúde e limitam o cuidado. Por intermédio do racismo, as desigualdades são causadoras de doenças e agravos que resultam nas iniquidades raciais em saúde. E, para as mulheres negras, outros fatores agregados, como o sexismo, expõem a uma situação de vulnerabilidade e violam o direito à saúde e ao acesso qualificado” (Goes e Nascimento, p. 578).

Penso que nosso desafio por uma saúde de qualidade e sem racismo/sexismo é grande. Estamos submetidas a esse tipo de atendimento principalmente devido a falta de informação e direitos. O que podemos fazer é divulgar a existência do racismo institucional e denunciar para que campanhas e ações estratégicas atinjam os profissionais e a população para que este fato não se torne invisível.

Minha contribuição enquanto mulher negra e atualmente gestante é mostrar que nós somos fortes o suficiente não para aguentar uma violência obstétrica, mas para sermos as protagonistas do nosso parto.

Fontes

GOES, Emanuelle; NASCIMENTO, Enilda. Mulheres negras e brancas e os níveis de acesso aos serviços preventivos de saúde: uma análise sobre as desigualdades. Saúde em Debate, vo.l 37, n. 99, Rio de Janeiro, 2013.

SUS sem Racismo, página no facebook. Disponível em: http://facebook.com/SUSnasRedes

ARRAES, Jarid. Mulher negra e saúde: “a invisibilidade adoece e mata!”. Revista Fórum Semanal, dezembro 2014. Disponível em: http://revistaforum.com.br/digital/176/mulher-negra-e-saude-invisibilidade-adoece-e-mata/