“Nenhum homem vai lhe querer com este cabelo”

Ouvi esta frase há cerca de oito anos, quando decidi passar por uma transição capilar e permiti o crescimento natural e livre do meu cabelo, sem qualquer tipo de alisamento. Para mim ouvir isso foi um choque. Choque porque me senti incapaz. Não podia fazer nada. Falar nada. Apenas calar. Não estava em minha casa. Os olhos encheram de lágrimas. Me senti frágil e feia.

Até hoje esta frase dói bem aqui dentro. Dói como uma faca cravada no peito. Talvez essa pessoa nem lembre o que me disse. Nem ligou se me ofendeu ou não. Nem se importou com minha escolha. Em todas as minhas oficinas Encrespando eu conto essa história. Eu falo essa frase. Falo porque sei que existem milhares de mulheres (e homens) que passaram pelo mesmo processo que eu. Que ouviram frases terríveis de negação de seu próprio cabelo. De negação do cabelo da negra, do negro, do pixaim, do crespo, do enroladinho, do carapina.

Lorena Morais Encrespando

Foto e make: Ni Mariah

 

Não sou feia com meu cabelo. Você não é feia com seu cabelo crespo. Você não é feio com seu black. Assumir seu cabelo natural é mais que moda. É assumir uma postura política e afirmar: “eu sou negra/negro, meu cabelo é crespo e eu amo ele assim”. É exigir respeito. É ter direito a escolha.
Com o tempo eu percebi que sou linda com meu cabelo. E aquela frase era tudo mentira. Na verdade aprendi que para um homem ou mulher me querer eu preciso antes de tudo ME QUERER. Então me quero TODOS OS DIAS. Quando acordo, me olho no espelho e digo: eu sou linda.

Após oito anos tenho a certeza que a melhor escolha que fiz foi deixar meu cabelo natural nascer. Enquanto aos homens… Queridinha/o, você que falou besteira, porque sou amada e amo por demais!
Você é linda. Você é lindo. Seu crespo é lindo. Ame e valorize.

Lorena Morais
Jornalista e Arte-educadora
Dezembro/2014

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Quando ser negra vai além de uma questão de pele…

Cachoeira, setembro de 2013

O racismo me calou durante anos. Calou-me através da timidez, da baixa autoestima, dos cabelos alisados ou do ferro no cabelo na beira do fogão, calou-me através das roupas, das bonecas brancas de bocas rosadas e barbies louras. Calou minha inteligência, minha coragem e meus desejos. O racismo não deixou ver minha beleza durante anos, escondeu meu sorriso, não me deixou ser doutora, nem atriz ou modelo, me fez não querer tentar ir às bancadas ou reportagens do telejornal, me fez acreditar que sou incapaz, ou “burra” e feia.

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Lorena Morais. (Foto: Arquivo Pessoal)

O racismo me fez durante anos enxergar um cabelo ruim, me fez chorar, odiar minha pele e meu nariz, fez me esconder no fundo da sala de aula, não querer namorar, fugir dos homens e acreditar que “aquele olhar não era pra mim” ou que eu não seria pra casar. O racismo me fez acreditar que nunca vou conseguir e que aquele palco não me pertence. O racismo trouxe-me tanta dor, tantas lágrimas que hoje são transformadas em uma única palavra: RESISTÊNCIA!

Ao acordar enfrento o racismo cruel no trabalho, na rua e na escola. Enfrento o racismo do olhar, o verbal, imaginário e disfarçado. Enfrento o racismo em uma cidade negra que carrega uma cultura do preconceito, do cabelo liso, da sexualidade da negra, roupas “da moda” e uma cidade que diz que “seu lugar não é aqui, sua neguinha” e que “candomblé é coisa do diabo”.

Sou negra, jornalista, agente comunitária de saúde, soterocachoeirana, amo o meu cabelo crespo, meu nariz, sou linda e me visto como eu amo, adoro turbantes, samba de roda, faço capoeira e para mim ser negra é muito mais do que uma questão de pele. Todos e todas somos iguais, mas só quem é negro/negra sente a dor da chibata nas costas. Chorar não alivia a dor. Enxuga essas lagrimas, levanta e vamos a luta!

RESISTA, NEGRO! RESISTA, NEGRA!